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terça-feira, setembro 14, 2021

Conhecer-te (24/08/21)

Você, professor. 
Eu, aluna.
Me vejo cheia de dúvidas,
questionamentos,
anseios,
curiosidade...
E você com paciência e jeito
me explica tudo e mais um pouco,
me faz compreender,
ver teu lado,
a tua ciência,
o teu método. 

Você, aluno.
Eu, professora.
Quando no meio dos nossos dias,
os meus assuntos surgem.
As cidades,
a sociedade,
o concreto armado
e o imaterial.
Do meu jeito, te mostro
parte do meu mundo
e te empresto os óculos
que guiam a minha vivência. 

Você, aluno. 
Eu, aluna. 
Porque ambos sabemos
a hora de calar e atentar,
pois conhecimento
é sempre bem vindo. 

Você, professor.
Eu, professora.
Porque ambos sabemos
a hora de falar e detalhar,
pois conhecimento 
é sempre mais real
e democrático
quando compartilhado.

Nessa vida,
ao teu lado,
eu aceito ambos os papéis.
Só não aceito 
a ignorância.

Estarmos juntos
é a prova de que quem busca,
hora ou outra,
encontra,
se encontra,
se perde,
e mais uma vez,
se compreende.

Te amar é escola,
viver ao teu lado é enriquecer
daquilo que de fato me interessa. 

Nunca tive 
tanta sede 
por conhecimento. 

Imenso (02.09.21)

Imenso
é meu carinho,
que se manifesta
nas palavras
mais doces.

Imenso
é o meu afeto
que se manifesta
no cuidado
de todos os dias.

Imenso
é o meu desejo
que se manifesta
no calor na pele
quando você chama por mim.

Imenso
é o meu orgulho
que se manifesta
sempre que tens
conquistas para contar.

Imenso
é o meu amor
que se manifesta
em cada uma das linhas
que te escrevo.

é o meu amor
que se manifesta
em cada uma das linhas
que te escrevo.

quinta-feira, julho 15, 2021

Terceira pessoa do plural (06.07)

Não racionalizando,
te encontro
num ponto
comum.
 
Onde eu e você
podemos sonhar
em ser apenas
um.
 
E sendo apenas um,
construímos
aquilo que paira
nos seus sonhos.
 
(Que agora também são meus)
 
Seus sonhos,
seus desejos,
seus prazeres,
seu futuro.
 
Meus sonhos,
meus desejos,
meus prazeres,
meu futuro.
 
De primeira
e segunda pessoa,
enquanto singulares.
 
Mas se um dia
assim for por bem
que venham eles...
E nosso sonho plural
assim se concretize.

sábado, março 24, 2018

Sobre o fim de certos ciclos

passava das três da manhã quando o visor do celular se iluminou e logo o aparelho começou a vibrar.
tinha teu nome na tela. teu nome e o emoji que caracterizava e tornava teu contato especial.
diferente.
eu ignorei.
passados apenas alguns segundos, o aparelho voltou a se iluminar e a vibrar.
novamente, eu ignorei.
estava me tornando cada vez melhor em ignorar tua existência e tua presença na minha vida.
eu nunca soube qual era o motivo daquelas ligações na madrugada.
nunca soube pois perdi o interesse em te perguntar ou em tentar descobrir que fim tínhamos levado.
não teve fim;
porque não teve começo.
mas teve sentimento. teve o "dito pelo não dito". teve paz e abrigo.
só não teve consideração, respeito, amor.
não o suficiente.
e foi por isso que deixou de ser, tão breve quanto pôde.
foi  por isso que meu coração escolheu não te amar mais. te deixar livre pra viver teu mundo e aproveitar de quantas pessoas tu bem quisesse.
e para que eu pudesse viver também.
não fui nobre e altruísta nessa decisão.
hoje, me importo mais comigo do que contigo.
me importo mais com o meu bem estar do que com o seu, coisa que deveria ter feito meses atrás.
mas só hoje, semanas depois do nosso ultimo encontro (o derradeiro desencontro) é que me permito dizer isso aqui.
hoje eu  me permito dizer "estar livre" de ti. te entender enquanto amigo, apenas. conhecido, eu diria.
um que passou por mim e não mereceu ficar, como eu andei dizendo por aí.
você não mereceu ficar e sabes muito bem o por quê.

agradeço pelos sorrisos e pelos risos, mas é aqui que terminamos essa história.
é aqui que coloco este livro na prateleira, sem nenhum marca página e com a lombada voltada para trás, para não cair em nenhum tipo de tentação e voltar a lê-lo.
tais palavras mais feriram do que curaram. salgaram-me a face com as lágrimas. entristeceram meu sorriso, sempre tão vibrante.
tais palavras farão para sempre parte da minha história. no passado.
mas, agora, "ou tem o hoje, ou tem o amanhã, o ontem não é uma possibilidade".

adeus.



(e é assim, com uma métrica totalmente diferente de tudo o que estou habituada a escrever, que publico esta postagem. breve, densa, e real. aqui, findou um amor. aqui, findaram três anos de tentativas. aqui, uma parte da autora morre para dar espaço à um novo alguém.)

seja bem vindo, meu amado outono! que sempre possas trazer minhas palavras e minhas inspirações em teus ventos. ♥

domingo, março 22, 2015

Sobre ser, no mais simples sentido do amor.

"Quero um amor que resista ao tempo, uma verdade pra abraçar pra sempre... caminhada de bons sentimentos, um coração que me entenda..."
Love.
Quando penso em ter alguém comigo, não penso que bastaria ser um alguém qualquer. Não é querer ser seletiva e nem nada do tipo, apesar de assumidamente ser. Me renego a algumas felicidades por razões que muitas vezes desconheço, mas o assunto não há de ser esse. 

Quando digo que preciso de alguém comigo, penso em situações já vividas e em outras que gostaria de viver. Essas situações, somadas, resultam no relacionamento que idealizo e anseio. Não convém mencioná-las, apenas dizer o quão feliz poderia ser se as conjunturas astrais agissem. Entretanto, não peço que ajam agora, que sejam instantâneas. Peço capricho dos céus, peço que me prepare uma felicidade tão absurda que surpreenda até mesmo a mim, tão conformada com pequenas atitudes. 

Tão pequenas mas que se mostram tão grandes. Frases soltas escritas e escondidas em lugares que apenas eu conheço, que apenas eu percebo e que chama atenção principalmente do meu coração, mais que aos olhos. Não peço perfeição, peço atenção. Atenção para mínimos detalhes que carecem de um olhar mais terno do que o habitual, de olhares cuidadosos e detalhistas para que percebam o quão importantes e recíprocos eles são. E dessa reciprocidade, peço que surja uma companhia que vá além do Eros. Que seja Ágape, que o afeto afete de fato, que exija sacrifícios em vários aspectos e que se prove valoroso. Que seja Philos, que proporcione lealdade, fidelidade, dedicação e que faça-me crescer mental e espiritualmente, que não monopolize ou escravize, que seja fraterno. E sem ser hipócrita... que haja o Eros também, e que haja em abundância. Que inebrie, que acenda o instinto, que desperte prazeres esquecidos ou desconhecidos. 

Mas não tem pressa não... Tô descobrindo que pra ser par, tem-se de ser ímpar primeiro, tem de ser una. Mas una contente. Una que não tem medo de ser una, pelo tempo que for preciso. Una que vai saber ser duo quando for propício. 

E que se for pra ser duo, seja pra sempre, seja breve, seja firme, seja leve, seja bravo e seja breve. ♥ 

sexta-feira, março 13, 2015

Sobre a ação dos Outonos em mim.

Rain

Não sei se vou conseguir me explicar e me fazer entender, gostaria que isso soasse mais claro do que estou imaginando, mas não sei como seria possível.

Há alguns dias venho me sentindo diferente e coloco a culpa disso na aproximação do Outono, estação minha, como tantos já devem saber. Mas esse é um Outono diferente. Outono em que completo duas décadas de existência nesse mundo. Ainda ontem na faculdade falávamos sobre as crises existenciais que rolam nesses períodos. Mencionei que a minha já rolava há alguns meses e de fato, tenho tido alguns pensamentos a cerca de tal data.

São duas décadas em que aprendi quase tudo de importante que é necessário aprender durante a vida. Acredito que o que vier daqui em diante, é adicional. Aprendi a comer, andar, correr... coisas básicas. Mas também, aprendi a usar Bháskara, a equilibrar reações químicas, a escrever sobre o que penso e a embasar meus argumentos. Acredito que nessas duas décadas, houve um crescimento exponencial de mim. O que vem daqui pra frente, é geométrico, é degrau por degrau, pequenas proporções que apenas agregarão ao que já aprendi.

Mas sobre o que já aprendi.. é muito, eu sei. Entretanto, me parece tão pouco. Ainda tenho uma sede de saber tão grande, um medo de ter deixado de aprender tanto quanto podia. Pode até ser neura minha, mas sinto que preciso saber mais, me aproximar mais das razões de tudo. Refazer minha fé!

Sempre acho que esses meses entre março e junho são os melhores pra isso. Me sinto tão centrada, tão disposta, tão perceptiva e sensível... Espero que esse ano seja como os dois anteriores foram: que o Outono auxilie na tomada de decisões e sirva como período de amadurecimento mental e espiritual.

E além de tudo, que o Outono de dois mil e quinze saiba me proporcionar sabedoria para lidar com as decisões que precisam ser tomadas. Que eu saiba separar o joio do trigo e que consiga explicar isso à quem precisa entender. Que eu saiba ser morada para aqueles que se aproximem de mim, para amigos que precisam de abrigo e porto seguro, que eu saiba oferecer proteção e livrar-lhes de males. Que meu espírito mantenha a confiança e a tranquilidade nas crenças em que ele crê e consiga se estabilizar nesse momento tão confuso, tanto na questão política quando psicológica, que ele saiba escolher a batalha certa pela qual vale a pena lutar e saiba também abandonar as batalhas erradas e as mágoas. Que esse Outono seja de mais que uma simples renovação, mas de transformação.

E ademais, peço apenas que os ventos frios que começam a soprar aqui no sul, possam trazer em seus braços um abraço quentinho onde se aconchegar, que acolha e aconchegue um espírito relativamente cansado das duvidas que tem visto pelos caminhos onde tem passado.

sábado, março 07, 2015

Pra me amar

As vezes me dá aquela vontade de sentir teu braço embaixo do meu pescoço e ter consciência que o outro braço vai me abraçar a noite toda, e ao acordar, você estará ali, tão sereno, tão calmo, de mente limpa, pronto pra ser meu de novo, mais uma vez, mais duas, mais cinco... pra sempre assim. 

Pensando que te quero perto, penso no quanto te quero e espero. Mas preciso confessar que a espera já é grande demais, que o coração anseia logo por te ter perto, junto, grudado, por momentos infinitos apesar de curtos, instantâneos mas duradouros, porque na minha mente eles não são tão efêmeros quanto te parecem. 

Minha efemeridade tem feito me afastar de ti, amor. Mas eu te peço: vem pra perto, não corre, fica... Faz de tudo, supera meus medos, minha insegurança, supera minha birra e teimosia, finge que não sou implicante e irritante, que sou tua menina perfeita... Finge e fica. Mas não finge pra sempre. Me mostra o quanto cê me ama e me quer por perto. Sobre me amar, não finge nunca. Não me engana, não me distrai... Se for pra distrair, faz mordendo minha orelha, me levando pra ver um filme legal e beijando as pontinhas dos meus dedos. Se for pra me distrair, faz pra eu não ver o tempo passar do teu lado, que é pro pra sempre chegar logo. 

E se o pra sempre chegar cedo demais e a parte do felizes aparentemente acabar... Não deixa. Não some, não vaza. Me explica e me queira mais um dia, só mais um. Amanhã vou saber te dar razões pra ficar de novo, mais uma vez, mais um inverno, mais um ano, pra tu ver nosso apê ficar pronto.

Não me diz que precisa de um tempo... Mas se quiser, toma ele pra ti, contudo, não me deixa sozinha, ou eu pego a solidão e danço... Finjo que nunca te pedi nada e que a vida contigo foi doce enquanto pôde, mas que agora amargou, pereceu, não pode mais acontecer. Não me pede tempo, porque se pedir, te dou a eternidade. O único tempo que aceito te dar é pra tirar a roupa e perder o ar me beijando, arfando e me pedindo pra nunca mais cogitar ficar longe. 

Se quer a minha cama como tua segunda morada, deixa meu coração ser a primeira... Deixa eu te colocar dentro de mim e te fazer viver mais vívido, mais colorido e mais lindo do que nunca, sempre dentro de mim. Me deixa te criar e reinventar, te fazer sentir um amor diferente... Amor de poeta. Me deixa te eternizar nas minhas palavras e não me proíbe delas, não me afasta do meu peito e nem do teu. Me faz ser tua sem me diminuir de mim. Me amplifica, me seduz a cada dia e me convence que do teu lado a vida é melhor de ser vivida. 

segunda-feira, novembro 24, 2014

Um conto sobre tempo, retornos e saudades

(Dê play. Heart like yours)

(Miguel narrando)
How could I live before? How could I’ve been so blind?...
Tateei as escuras, sem conseguir abrir os olhos, apenas guiando-me pelo som e tentando perceber de onde ele era emitido. Fui enganado pelos meus sentidos algumas vezes e percebi que não estava desperto o suficiente pra atender ao telefone. Deixei que tocasse.
Breath deep, breathe clear, know that I’m here, know that I’m here, waiting...
A luz da tela voltou a iluminar o breu do meu refúgio. Dessa vez, mais incomodado e desperto, fui capaz de encontrar meu celular e atendê-lo.
- Hm?
- Acorda, Miguel.
- Valentina?
- Tereza. – disse a voz e eu estranhei ouvir aquilo. - Eu preciso que você apareça aqui daqui meia hora, Miguel. A Valentina vai falar coisas que você precisa ouvir.
- Mas, são... – o som da chamada encerrada me invadiu. Tereza ligando as, hm, duas da manhã... Valentina dizer coisas que eu preciso ouvir? Considerar isso ou não considerar?
Por dois segundos pensei nos aspectos positivos e negativos de pegar o carro, dirigir por algumas quadras vazias e chegar até o condomínio em que ela morava. Eram duas da manhã. Em quatro horas eu precisaria levantar... aula de estruturas, a avaliação do semestre estava chegando e eu precisava de uma boa nota ou então ficaria retido no semestre e seria mais um até me formar. Meus pais já andavam reclamando que o engenheiro da família andava sendo muito relapso, mas... Mas era a Valentina. Eu precisava ir, não importava o quanto precisasse não ir.
Me perguntei, por um momento, como uma chamada tão inesperada poderia produzir tantos pensamentos aleatórios. Mesmo que a tela indicasse “Valentina ♥” e a nossa música me dissesse que seria ela do outro da linha, não era. Mas ainda assim, fiquei extremamente surpreso. “Ela vai falar coisas que você precisa ouvir”. Que coisas poderiam ser essas? Já tínhamos dito tanto um ao outro, até nos calarmos e consentirmos com o hiato que havia ficado ali. O hiato que eu havia criado no nosso relacionamento.
A tela do celular se iluminou de novo. SMS.
Me avisa quando estiver na porta. Manda msg pra mim. Já liberei sua entrada na portaria, mas entra e espera. Não faz barulho, só ouve. T.
Tudo bem, então lá vamos nós.
Um tempo depois, a tela do celular da Tereza se iluminou. SMS do Miguel.
Tô aqui já. Me explica o que tá acontecendo.
Respondi: Espera. Ouve, fica atento.
As instruções eram claras. Ficar em silêncio e ouvir.
Não entendi ao certo as razões de eu estar fazendo aquilo. Era quase cruel com a Valentina isso que estava pra acontecer, seja lá o que fosse. Nem eu conseguira entender ao certo o que estava pra acontecer.

(Valentina narrando)
Era quinta a noite, eu e a Tereza estávamos na sala assistindo um filme romântico. Até o ultimo instante eu disse à ela que não queria assistir um romance, que não conseguiria dar conta daquilo, mas ela fez de tudo para que assistíssemos, então, que seja! Se eu tivesse uma crise, a única pessoa que ouviria meus lamúrios seria a responsável pelo desabrochar deles. Ou seja, caso ocorresse, ela mereceria ouvir cada reclamação e secar cada lágrima. Papel de colega de apartamento.
Lá pelas tantas notei que o filme me tocaria bem mais que normalmente os filmes costumavam me tocar. Algo com um efeito  “Nicholas Sparks” estava pra acontecer. Algo como... A Culpa é das Estrelas, ou Um Amor para Recordar, ou ainda, Um dia...  algo desse gênero. O da vez era Se Eu Ficar. E com menos de meia hora de filme eu já tinha chorado duas vezes. Tereza me pagaria com sangue. Ou com lenços, talvez.
A pipoca estava no fim já, então recolhi nossos potes e fui indo na direção da cozinha para fazer mais.
- Tê, dá um pause. Não quero perder nada, mas preciso de mais pipoca pra ruminar. Com brigadeiro dessa vez?
O som cessou na sala e logo depois, Tereza me respondeu dizendo que sim, brigadeiro seria uma ótima.
- Val, você tá chorando muito hoje. É o filme ou tem mais coisa?
“Mais coisa”. É óbvio que tem mais coisa. Ela sabe.
- Mais coisa, com certeza. Mas mais do mesmo. Como sempre.
- Quer falar disso um pouquinho antes de voltarmos a ver o filme? Com a alma limpa fica melhor assistir romances.
- Hoje não era um bom dia pra romances, eu te disse. Vou fazer a pipoca e daí sento aí pra falarmos do drama “Miguel” um pouquinho. Preciso de ajuda pra entender umas coisas que andaram acontecendo mesmo.
Ela afirmou e pegou o celular. Provavelmente iria olhar o feed de notícias de alguma rede social, pra fazer o tempo passar... deve ser isso que as pessoas pensam quando ficam fuxicando nas redes sociais.
Coloquei a pipoca na panela e comecei a mexer o brigadeiro. Cozinhar, mesmo que um simples brigadeiro, sempre foi terapia pra mim. Era um dos momentos que eu conseguia me manter mais concentrada em mim mesma. Até mais do que nos momentos pré-sono. Cozinhar era um meio de ter a atenção voltada toda pra mim, mas ao mesmo tempo, ter a mente limpa, focada no que precisava de foco naquele momento: a chama acesa do fogão, a comida na panela.
Pensei nos aspectos que queria compartilhar com a Tereza. Pensei nas tantas coisas que eu havia refletido durante a semana e sobre as várias conclusões que havia chegado sobre o fim do meu relacionamento com o Miguel. Bom, não há muito o que se dizer, na verdade. Ele estava passando por um momento de conflito emocional, ou sei lá o que, e eu imagino que a Engenharia também devesse estar deixando ele quase louco. Mas eu sempre tinha me sentido como um ponto de segurança pra ele, uma fortaleza, então não conseguia imaginar o porquê de ele precisar se afastar em uma situação de conflito emocional. Não conseguia entender o porquê de precisarmos ficar afastados num momento que ele precisava de alguém por perto e não se isolar.
Até que chegou um momento dos últimos quatro meses em que eu decidi que não me culparia e nem questionaria mais os ocorridos. Apenas viveria da forma que fosse possível. Com aquela ausência constante e o fantasma de um ex-namorado carinhoso a espreita, me fazendo sentir saudades dele a cada vez que respirava.
Uma vez pronta a pipoca, fui até a sala e me sentei no sofá ao lado da Tereza. Ela me olhou, sorriu e atacou seu pote de pipoca.
- Hm, tá muito, hmmm, boa! Só você sabe fazer isso aqui ficar tão bom.
Agradeci com um balanço de cabeça. Ela me encorajou a começar falar.
- Bom, não sei ao certo... Acho que só ando sensível demais a saudade. Ver ele pelos corredores da faculdade as vezes me deixa atormentada. Por mais de uma vez já nos cruzamos e mal conseguimos nos cumprimentar, Tê, e eu acho que essa é uma das coisas mais tristes que já vivenciei na vida. Ele foi a pessoa mais importante que eu já tive do meu lado, o parceiro mais completo e que mais me fez feliz, que mais me fez sentir intensa. E mesmo assim, parecemos dois desconhecidos nos corredores. – Uma lágrima fez menção de escorrer pelas maças do meu rosto, mas eu a repreendi mentalmente e pedi que aguentasse firme mais algum tempo. – Ah, Tê, sei lá, de repente é até o contrário disso. De repente a gente conhece tanto um do outro que sente a dor de estar separado, mesmo continuando assim, e por isso a gente se estranhe a cada vez que se cruza por aí. Eu sinto dor naquele olhar... sinto saudade, sei lá! Pode ser que tudo isso seja só imaginação... que a única coisa que ele sente quando me vê é pena, mas sei lá, Tereza, sinto que a situação ficou tão mal resolvida que a qualquer momento que a gente se cruzar, um vai abraçar o outro e a gente vai começar a chorar ali no meio da faculdade.
Do nada, ela saiu do lado oposto do sofá e deitou no meu colo. A Tereza me conhecia tão bem que sabia que pra eu me sentir confortada de verdade, eu precisava estar confortando alguém. Ela, no caso.
Percebendo o meu silêncio, ela instigou:
- E então?
- Então o quê, Tê? Então que eu sinto falta dele no meu dia-a-dia, a cada instante, a cada ínfimo segundo. Pode ser a coisa mais idiota e errada a se dizer, mas eu sinto que preciso compartilhar com o Miguel as coisas que se passam comigo, esses sentimentos e pensamentos que dizem respeito a ele. Mas... mas eu prometi que não faria isso da última vez que nos falamos. Prometi que nossa relação se limitaria ao estritamente necessário. Mas não pensei que as consequências dessa promessa fossem me deixar tão inquieta, com a mente tão bagunçada... Querendo ou não, dizer pra ele todas essas merdas que eu penso e falar o tamanho da falta que ele me faz, fazia com que mantivéssemos contato, fosse isso bom ou ruim. Mas agora... faz semanas que não tenho notícias dele. Aguardo uma mensagem no Whatsapp quase que diariamente. Abro o perfil dele mil vezes. Vejo a foto, a última vez que esteve online e penso porque ele nunca escreve nada onde temos o ‘status’. Penso, porque diabos, ele não coloca alguma indireta ali, ou sei lá o que?! Ou eu sou maluca por fazer essas coisas?
- Não é não, Val. É quase que perfeitamente normal você ter esse tipo de atitude. Você sente falta, quer demonstrar, mas reprime o impulso e muitas vezes eu acho que isso é a coisa mais certa a se fazer. Mas, você não acha que já deu a hora de acabar com isso de vez? Sei lá, desistir dele ou de estar com ele, pelo menos por agora? Se for pra ficarem junto um dia, vocês vão ficar.
- Tê, quem me dera ter clareza ao pensar nessas coisas. Nos meus pedidos antes de dormir, sempre clamo por sabedoria pra lidar com tudo isso. Meu amor grita dentro de mim pedindo pra ser declarado pro Miguel. Sabe, eu nem consegui dizer pra ele que o amava... a gente não chegou a ter tempo pra isso. Foi tão breve e tão intenso. Tão diferente de tudo o que eu já tinha sentido antes... Tão mais sincero. E mesmo que em alguns momentos não pudéssemos ser tão sinceros pras outras pessoas quanto a nós, quanto a sermos ‘nós’, a gente já sabia que era e não tava nem ai, sabe? Uma vez comentei com ele que uma colega tinha me pedido se a gente tava junto e eu disse que não, que éramos apenas amigos. Ele me respondeu dizendo que “então tínhamos achado o pote de ouro, que aquela era a amizade mais colorida já vista”. Preciso concordar. Antes de sermos, já éramos, saca?
- Eu sei, Valentina. Fui a pessoa que mais conviveu com vocês dois. Antes de serem e depois, quando já eram. Esqueceu? Só eu sei o quanto eu torci pro amor de vocês nunca terminar, pra ser sempre como estava sendo. Mas, do nada, vi o castelo de cartas desabar...
E desabou. E, por consequência, desabei junto. As lágrimas me vieram aos borbotões.
Mesmo que ele dissesse que não e que a Tê também me garantisse que não... eu achava que o desmoronamento daquele castelo de cartas era culpa minha. Eu desconfiava que meu afinco em fazer cada molécula do meu corpo cooperar para o bom desenrolar daquele relacionamento havia sido o estopim para o fim precoce do meu romance.
- Não, Val, não chora desse jeito ou vou me sentir culpada pelo que to fazendo.
- Pelo que tá fazendo? Não tá fazendo nada, to só desabafando contigo, pra variar.
- Não, Valentina. Eu tô fazendo mais que isso.
Eu fiquei tão confusa que me levantei do sofá, meio que de supetão. Tereza se assustou e levantou de onde estava, meio que sem saber qual seria o próximo passo a ser dado.
Quieta, ela saiu do sofá e foi em direção a porta e como se alguém tivesse batido ali, a abriu.
Ninguém havia batido, de fato. Mas havia alguém ali. E o alguém que ali estava, era, por se dizer, um dos poucos alguéns que não devia estar ouvindo toda aquela conversa. 
- Entra, Miguel. – Ela disse, assim, como se estivesse dizendo ao carteiro que sim, aquele era o endereço correto pra entrega das faturas de luz, água e demais contas que precisávamos pagar todo mês.
Ele só conseguia olhar pra mim. Analisar minhas feições, ver minhas lágrimas, entender meus gestos, imaginar minha confusão, acredito. A situação toda tinha fugido do meu controle e, então, foi quando percebi que ela nunca esteve nas minhas mãos. Que o controle da noite havia sido da Tereza... que ela havia manipulado tudo aquilo e cogitei que, talvez, o Miguel estivesse envolvido em toda aquela manipulação.
Me senti ultrajada, envergonhada e exposta, pra não dizer puta da vida.
Percebi, numa fração de segundo, quando meu olhar cruzou o dele que eu não era a única desnorteada ali... havia sim, sido manipulação da Tereza, mas só dela. Ele era inocente. Ao menos nesse aspecto.
Eu recuei até onde pude, até meu corpo todo estar colado a parede atrás de mim. Me senti traída... sei lá. Minha amiga percebeu e logo começou a andar em minha direção falando coisas sem sentido, tentando explicar as razões de ter feito aquilo. Mas eu evitei que ela se aproximasse. Saí pela tangente, mas notei que dessa forma me aproximava do Miguel, de súbito, parei.
Mas, quando parei, vi uma mão estendida na minha direção. A mão dele.
- Vem comigo. – Ele disse, ainda com a mão estendida, esperando que eu a pegasse.
E eu peguei. Senti o toque dele quatro meses depois de ele ter me dito que precisava de um tempo. E o toque foi quente de novo, reconfortante, mesmo sendo o mero toque das nossas mãos, não passando de um toque breve...
Assim que eu o toquei, ele fechou sua mão em torno na minha e me puxou em direção a porta. Deixamos Tereza falando sozinha.
- Pra onde a gente tá indo? – Abarrotada de pensamentos, tentei entender pra onde ele estava me direcionando. Não estava prestando atenção nas paredes, nas escadas, em mais nada... só sentia o toque dele na minha pele, de novo ali, como se jamais tivesse saído de mim.
- Pra algum lugar aberto. A gente precisa conversar, caminhar... mas não ali. Eu entendi o que aconteceu só quando aconteceu de verdade. Não curti a atitude da Tereza, mas sinto que colaborei com ela.
Foi então que, pouco antes de abrirmos a porta do meu prédio, parei e questionei-o sobre o que estava acontecendo.
- Não sei, amor... ela me mandou uma mensagem do seu celular e me pediu pra aparecer em meia hora porque você ia falar o que precisava ser dito. Eu entendi o que ela quis dizer, o que ocorreria, mas não sei se tava preparado pra ouvir as coisas que você falou. – A palavra amor ainda estava ecoando na minha cabeça.
- Oi?
- Que?
- Você me chamou de...
Com uma expressão de quem se recriminava, mas que ao mesmo tempo estava satisfeito com o que havia feito, ele repetiu: - Amor.
Eu me senti atordoada por um instante, como se minha cabeça estivesse cheia de uma fumaça, uma névoa... os quatro meses estavam socando a minha cara.
- É que não sei se você percebeu, mas faz quatro meses desde a última vez que nos referimos um ao outro dessa forma...
- Eu percebi, Valentina. Eu percebi cada dia passar arrastado por não te ter por perto.
Um soco no rim, outro no pâncreas, outro no pulmão. Fiquei sem ar.
- Ei, vem aqui... – Ele me puxou de encontro ao peito e eu voltei a me sentir aninhada, confortada. Porque quando estava com ele era um dos poucos momentos em que me sentir confortada queria dizer “estar aninhada” e não “estar aninhando” alguém. Ali, o pássaro frágil era eu. – Desculpa por estar trazendo toda essa loucura a tona. Não é bem minha culpa, mas me sinto culpado do mesmo jeito, amor... – ele disse de novo, dessa vez mais consciente ainda das quatro malditas letras que estava pronunciando.
- Eu... eu não sei se aguento você me chamando de amor assim.... – eu disse, dando um sorriso meio amarelo, meio torto... esperando que ele entendesse aquilo como eu havia pretendido soar.
- Você aguenta e ainda vai ter que ouvir muito, porque das palavras que eu digo, essa e, principalmente quando dita pra você, é a coisa mais verdadeira nesse mundo.
- Mas se é assim tão verdadeira, por que é que ficamos quatro meses sem pronunciá-la um pro outro? – Já haviam lágrimas brotando dos meus olhos mas dessa vez eu não as impedi de rolarem. Com ele não haveriam máscaras, não haveriam disfarces, não haveria contenção. Pra ele a verdade, sempre, nua e despida de toda e qualquer vergonha pelos meus sentimentos.
E como que por um milagre, eu vi aquele olhar.
Doce e inesperado, veio até mim um par de olhos castanhos que invocavam uma tempestade dentro de mim. Uma fusão de sentimentos e de sensações... um par de olhos castanhos que se fechou aos poucos enquanto o seu dono aproximava os lábios dos meus lábios, tão saudosos dos beijos seus.
E ali, ratifiquei minha sentença: não haveria mais razões para lutar ou dizer que não. Nunca houveram na verdade, nunca houve resistência da minha parte e agora, como não havia da dele também, nada mais nos impedia de estar juntos.
Não houve resistência alguma por parte dos meus lábios e os dele, tão suaves quanto sempre, fizeram o favor de matar a saudade que eu sentia daquela intimidade tão conhecida e importante pra mim. Não houve uma noite sequer, destes quatro meses que eu não tenha dormido abraçada num travesseiro esperando pelo dia que ele retornasse, aguardando por hoje, para que pudéssemos então retomar o que não devia ter tido uma interrupção.
E então, sem muita conversa, fizemos o que havia de ser feito: dormimos juntos novamente e aquela noite estava marcando o início de uma nova contagem: três meses mais um dia...
E se me questionarem sobre minha passividade quanto aos fatos, eu posso dizer apenas que não me arrependo de não ter questionado suas ações. Cedo ou tarde, o tive de novo pra mim. E sou grata aos céus por ter entrelaçado nossos destinos mais uma vez. Não houve uma noite sequer que eu não fantasiasse com esse retorno, com essa “volta dos que não foram”, porque sim, Miguel não havia deixado os meus pensamentos nem por um segundo. Mesmo quando me degradava com outra pessoa, tentando esquecê-lo ou substituí-lo em noites regadas a vodka e solidão... Todas as vezes que estava acompanhada de outro homem, me sentia sozinha, até que nos quarenta e cinco do segundo tempo, resolvi mudar a estratégia. E esperei. Esperei pacientemente até que retornasse. E mesmo sabendo que fora de um jeito torto, eu sei as coisas que ele ouviu e escutei as coisas que ele me disse depois... Eu soube que ainda havia mais para ser vivido e eu quis viver aquilo! E não titubeei. Eu vivi, porque sabia que precisava viver aquilo naquele momento. Sabia que não poderia correr para longe daquele abraço, pois era exatamente ali onde eu queria e devia estar por um determinado período de tempo, que havia sido acrescido e aumentaria a partir de agora. E ainda tive certeza que apesar dos tropeços, desta vez não seria como antes. Seria diferente. Haveriam mais cobranças e mais razões para questionamentos, mas eu esperava que soubéssemos lidar com aquilo. Com sorte, saberíamos. Pela sorte, juntos estaríamos por mais um período de tempo (mais longo desta vez, por favor, Senhor do Tempo).



Oi galera! Zilhões de anos sem aparecer, mas, assim como com a Valentina, os meus últimos meses têm sido complicados. Espero que em breve melhorem. Bom, férias! Quem sabe apareço mais por aqui! Se a fossa prosseguir, mais contos surgirão. Grata aos que chegaram até aqui!
Boa noite/tarde/dia, sei lá! Beijinhos. 

domingo, janeiro 19, 2014

Sobre os tropeços que a vida dá


As mãos que me acariciavam docemente as costas me provocando deliciosos arrepios e arrancando suspiros, faziam parte do conjunto corporal cujos olhos me encararam firmemente enquanto nossos peitos moviam-se verticalmente em um mesmo compasso. Agora, nos encontrávamos deitados lado a lado, vestindo pouco ou quase nada, momentos após nossos corpos terem nos proporcionado incríveis sensações. De olhos fechados, eu procurava admirar a lembrança daqueles instantes, quando seus olhos me encaravam com um fervor inquestionável, um desejo que fugia dos controles das nossas mãos. Aqueles negros olhos que escondem mais coisas do que eu jamais serei capaz de imaginar eram os mais profundos que eu já havia visto e que penetravam minha alma e acendiam em mim sentimentos impossíveis de serem verbalizados.

As noites eram curtas ao lado dele e nunca bastavam. Os dias, por sua vez, tinham a quantidade de um pequeno infinito de teimosos minutos que custavam a passar. A cada reencontro, a cada beijo de “olá”, ela se questionava sobre como é que haviam chegado a esse ponto, a essa intimidade e necessidade mútua dos carinhos e da presença um do outro.

Houve um tempo em que ela, Laura, não tinha tempo e nem cabeça para pensar em paixões como essa que agora vivia junto com Antônio. Ela julgava as aventuras românticas de natureza incerta como falhas e duvidosas, mas com ele, foi capaz de compreender que o bem-estar de se estar bem valia mais do que a consciência que pesava sobre si. Os valores que tanto cultivava tiveram de ser deixados de lado por alguns curtos momentos, de modo a fazê-la viver, no mais pleno sentido do verbo. Há muito ela não se aventurava, não cometia loucuras, se é que algum dia havia cometido alguma que valesse a pena ser ressaltada.

- Você sabe que somos efêmeros, não sabe? – a volatilidade da natureza de seus sentimentos era tema recorrente na mente de Laura, que desconfiava ser o único ser pensante da relação, a que procurava arriscar menos, apesar de querer se jogar de cabeça naquilo que lhe enlouquecia: o relacionamento com Antônio. 

- Somos? 

A falta de noção dele com relação à natureza da convivência romântica de ambos dava-lhe nos nervos. Ou ele era realmente ignorante ou tinha optado por ignorar a situação. Ela desconfiava da segunda hipótese. De bobo, o rapaz nada tinha.

- Sabes muito bem que sim. Não entendo o porquê de recusar-se a aceitar esse fato. 

- Laura, eu não me recuso a nada, não quando estou do seu lado. Simplesmente não vejo a menor necessidade de questionarmos os fatos, de alterar a ordem de uma expressão que está perfeita da forma que é. – Homens. Insistem em comparar sentimentos com ciências exatas. Será que vocês não poderiam, por favor, ser um pouco mais sensíveis às questões humanas e românticas da situação? 

- Eu não quero discutir, amor, não mesmo. Eu sempre faço isso... sempre penso demais, peso demais, comparo demais. – ela ponderou por alguns segundos, e acrescentou, de forma dramática – Eu realmente não entendo como é que você consegue gostar tanto da minha presença mesmo eu tendo esses surtos de consciência.

Surtos esses que eram realmente freqüentes, coisa que ela desejava que não fossem. Ela tinha absoluta ciência dos fatos e dos rumos que aqueles encontros furtivos iriam tomar, mas ainda assim, não fez nada para mudar. Deixou que a água passasse por baixo da ponte quando o que deveria ter feito era represá-la. Essas incoerências com sua conduta normal só a fazia questionar ainda mais seus valores e o que ela tinha se tornado. Uma qualquer? Uma “dessas”? Ela não desejava isso, de forma alguma, mas o momento de interromper aqueles encontros havia puramente desaparecido. Laura não conseguia imaginar esse diálogo, não sabia as palavras certas pra usar, nem o momento certo de pronunciá-las, portanto, tinha decidido que as coisas se manteriam como sempre foram e – possivelmente – sempre seriam, para seu total desgosto.

- Vem, deixa eu fazer carinho em você, te dar cafuné e lembranças felizes.

E com isso, ela se entregava. Não havia contra quem lutar ao não ser ela mesma. Mas aquela batalha já estava ganha e o vencedor declarado não era ela. Sua derrota estava estampada no sorriso em seu rosto: sim, eu vou para os teus braços, eu sempre vou.

O conforto daquele abraço não é coisa de gibi. O corpo dele era mais confortável e adaptado a ela do que o de qualquer outro jamais se aproximou de ser e isso a assustava, fazendo com que seus pesares voltassem à superfície da mente. Suas questões e seus valores estavam sempre ali, a espreita, prontos para emergirem quando qualquer brecha fosse aberta, para fazê-la enlouquecer com tantas dúvidas.

O intenso fluxo de pensamentos logo a fazia pegar no sono, a cadência da respiração dele era a melhor canção de ninar que ela já ouvira e se concentrar naqueles leves suspiros a fazia entrar em um mundo que só pertencia a ela: seus sonhos.

Especialmente naquela madrugada ao despertar com breve lampejo de suas responsabilidades, olhou no relógio para conferir o tempo que estivera fora do ar. Ela não se permitia dividir a cama com ele por uma noite inteira, ou então, as coisas fugiriam do seu controle. O marcador digital do relógio indicava 4:48 da manhã. Ela iria para casa, dormiria até as sete e meia e as nove precisaria estar em seu escritório, apresentável e exibindo uma postura digna do renome que carregava. O primeiro cliente estava agendado para as 9:15, com um caso de divórcio litigioso que exigiria dela grande concentração e poder de persuasão diante da corte.

Laura tomou cuidado para se desvencilhar dos braços dele sem causar barulhos ou movimentos bruscos demais. Sempre que Antônio despertava e a via juntando suas coisas, ela acabava por se atrasar. Ele havia despertado levemente e observava-a enquanto vestia o jeans e a camiseta da noite anterior. Permaneceu quieto e quando ela se virou para enviar-lhe um beijo com a ajuda das correntes de ar, notou o olhar incisivo dele. Um sorriso lhe saltou aos olhos por vê-lo com aquela cara de sono de quem havia tido uma noite maravilhosa e ela teve de se aproximar da cama para dar-lhe um bom dia mais condizente com seus sentimentos.

- Anseio pelo dia que você vai acordar do meu lado na metade da tarde. – ele sorriu e piscou demoradamente, tornando suas feições ainda mais suaves e doces.

Ela depositou um beijo em seus lábios e disse que a decisão cabia pura e tão somente a ele. Que as escolhas e o rumo que seu relacionamento tomaria era dele e só. Que em nada lhe cabia aquela decisão.

O cenho dele franziu em resposta. Toda aquela responsabilidade que ela sempre lhe incumbia o deixava catatônico. Ele sabia que, de fato, a decisão de estar com ela por um período mais apresentável de horas do que das nove da noite até, no máximo, as seis da manhã era de sua exclusiva alçada. Mas lhe faltava fôlego para decidir, para dialogar, sobrepesar, e, sobretudo, lhe faltava fôlego para permitir que uma pessoa que lhe fora cara por tanto tempo deixasse sua vida de modo tão brusco.

- Sei que é minha decisão. Mas, no auge da minha canalhice e do meu egoísmo, não consigo ficar sem nenhuma de vocês duas.

Aquilo sempre a ultrajava. E sua feição fazia o favor de expressar aquilo. No exato momento que ele iniciou a pronunciar a palavra “duas”, seus olhos verdes adquiriram uma profundidade quase odiosa.

Ela não se permitia sentir ódio pela terceira pessoa que havia sido imposta ao relacionamento dela com Antônio. E, aliás, se punia a cada bom momento com ele por saber que aqueles instantes não a pertenciam. A única coisa que ela levava daqueles encontros furtivos com seu amante era o sorriso que o próprio rosto estampava diante da lembrança da presença dele e do prazer que ele obtinha quando em sua companhia. O ódio que ela sentia, por sua vez, provinha da sua indiferença com o sentimento alheio. Ela se permitia ter culpa em algumas situações, mas não permitia que a culpa lhe inundasse e a fizesse tomar a decisão que precisava: causar o rompimento do seu romance com Antônio. Havia outra pessoa no jogo, outro vértice do triângulo amoroso em que ela estava envolvida, e ela não gostava da idéia de pensar em fazer alguém sofrer por sua culpa, de trair alguém ou de causar uma traição... mas já fazia um tempo desde que tomara a decisão de primar pela sua felicidade e não pela lógica do mundo lá fora.

Ele entendeu, de súbito, que havia pisado em ovos e que as palavras haviam excedido o limite do aceitável entre ambos. Tocar naquele assunto sempre a fazia congelar e ele sabia que naqueles momentos, a única coisa que Laura sentia por ele era repulsa.

- Eu... sinto muito. Sinto muito mesmo. Sei que tem coisas que não devo dizer, não devo verbalizar... – Antonio foi interrompido antes de terminar sua súplica por desculpas.

- Têm coisas que você nunca deveria ter feito, Antônio. Decisões que você nunca deveria ter tomado. Escolhas que nunca deveriam nem mesmo terem sido cogitadas, caso seu caráter fosse algo pelo menos próximo do considerado como “digno” ou “honesto”.

Quando tocada pelas palavras erradas, Laura tornava-se cruel. Essa habilidade nata havia feito-a ganhar muitas causas nos tribunais. Enquanto seus clientes eram acusados – ou mesmo quando ela precisava acusar alguém – haviam palavras que despertavam na jovem porém experiente advogada, uma espécie de válvula de auto-defesa e ela se tornava uma leoa defendendo suas crias. Esse instinto nunca a tinha decepcionado. Ela sabia que havia certas palavras que eram responsáveis por causar aquele efeito nela, mas jamais sabia desde quando aquele talento se tornara parte de quem ela era como profissional – e em situações como essa, como amante.

 Os olhos de Antônio estavam focados nela, arregalados, para se ser mais fiel aos fatos. Laura havia acionado nele uma espécie de ultraje, de espanto, e entendia as reações que viriam a seguir.

- Você me considera indigno ou desonesto, mas se esquece de que corrobora para as minhas traições, de que sem você, eu seria fiel à ela...

- Não Antônio, você não conseguiria ser fiel a ela nem que tivesse a ponta de uma espada posicionada contra o seu peito, simplesmente porque você não a ama o suficiente para permanecer do lado dela qualquer que seja a situação. Você sabe por que a trai, não sabe? Você trai a Manuela simplesmente porque não consegue lidar com o que o relacionamento de vocês se tornou. Você não consegue lidar com a monotonia. Não entende os motivos que fazem alguém querer permanecer por tanto tempo ao lado de uma pessoa só. Você não sabe distinguir um simples “trepar” com um ”fazer amor”, simplesmente porque você não consegue amar, não consegue... – a voz falhou, os olhos já marejados ferveram com uma raiva e uma paixão que a enlouqueciam e, por um breve momento, algumas lágrimas fugiram do seu controle e assumiram o poder que a gravidade lhes impunha, caindo com todo o peso que lhes cabia pelas maças do rosto de Laura – Você não consegue admitir que não é feliz ao lado dela, não mais. Que vocês se desgastaram com todo esse tempo... Você não quer “largar do osso” porque sabe que com ela tem sexo garantido, tem um status de relacionamento e alguém para levar pra casa nos feriados e apresentar pros teus pais como sendo sua namorada. Você sabe que é assim. – a voz embargada se tornou quase inaudível conforme as palavras foram lhe saindo da boca como uma cachoeira em seu volume máximo de água e quando ela se aproximou do fim de seu discurso, sua voz não passava de um sussurro choroso.

A essa altura, Antônio se encontrava sentado na beirada da cama, com os dedos permeando o cabelo e os cotovelos apoiados sobre os joelhos. Ele não soube o que dizer, mas imaginou que aquela cena toda poderia ter um fim se ele se levantasse dali e fosse até a porta do quarto para onde ela havia se dirigido quando percebeu o rumo que as coisas haviam tomado e a abraçasse.

Foi o que ele fez e, a principio, a reação dela foi exatamente a que ele imaginou. Laura o abraçou também, encostou a cabeça em seu peito e chorou.

Ele começou a murmurar palavras doces, como que para fazê-la parar de chorar, pedindo suavemente para que ela se acalmasse enquanto misturava tudo isso com pedidos de desculpa por ter provocado tudo aquilo.

O que ela fez logo em seguida foi que o surpreendeu.

Como que por mágica, ela se desvencilhou de seus braços, pegou seus pertences e em um giro de 180 graus, tomou frente à porta e saiu. Assim. Sem nada lhe dizer, sem aceitar os pedidos de desculpa dele ou mesmo dizer que voltaria a noite para que pudessem esclarecer as coisas. Laura simplesmente havia saído do recinto, levando consigo uma parte dele que nem mesmo ele tinha ciência da existência.

A dor da decisão que ela havia tomado durantes aqueles últimos momentos nos braços dele, causada pelas verdades que enfim ela tinha tido coragem de pronunciar, ia com ela porta afora. Aquele peso que ela havia adquirido a faria lembrar-se de todos os porquês de ter feito o que fez: de ter abandonado Antônio de uma vez por todas.

Seu Honda Civic a esperava em frente ao prédio em que ele morava. Entrou no carro e deixou que as lágrimas rolassem pelo seu rosto, ficando ali por mais tempo do que seria necessário.

Antônio a observava da janela de seu quarto, no quinto andar, notando no peito um sentimento de perda e uma intensa vontade de gritar, implorando para que ela voltasse para o quinto andar... para o quarto dele... para a vida dele. Mas, depois do que lhe pareceu serem apenas alguns minutos, ela deu partida e saiu dali, decidida a não mais voltar enquanto o estado civil e o caráter dele não estivessem bem resolvidos.

Ela tornou a pensar no que ele disse sobre ela também ser culpada sobre as traições dele e pela primeira vez, se permitiu sentir culpa, fazendo com que algo sem precedentes lhe tomasse o peito. Esforçou-se para manter os olhos limpos de lágrimas até que estivesse adentrando a garagem de seu próprio edifício, tentando assim evitar qualquer acidente ou problema. Porém, ao estacionar na vaga que lhe cabia, seus olhos começaram a arder novamente, dando indícios de que ela ainda era capaz de chorar antes de estar desidratada e delirante.

Tomou o elevador e pressionou o botão de seu andar por instinto, torcendo para ter acertado. Sentiu grande alívio quando o elevador parou e ao abrir as portas, viu que estava no seu andar. Foi até sua porta e a abriu, com mais empecilhos do que haveria encontrado em uma situação normal. Entrou, colocou as chaves no aparador de forma metódica, deixou a bolsa em cima do sofá sem nem se incomodar de tirar seu celular lá de dentro - ela não queria ser incomodada por o que quer que fosse, mensagens de texto ou ligações, de quem quer que fosse, mas em especial, dele. 

Tomou o cuidado de retirar o que lhe restava da maquiagem borrada e tirou a roupa que tinha usado para encontrar Antônio. Tinha o cheiro dele. Seu cardigã. Sua camiseta de algodão. Sua calça jeans. Seu corpo. Toda a sua mente se inebriou com aquele cheiro e ela se deixou levar por aquilo, apenas por um breve instante. Tornou a si quando entrou em baixo da água morna, livrando-se de qualquer traço de suor dele, qualquer resquício do cheiro daquele homem. Apenas por hoje, ela não precisava lembrar de tudo o que viveram (nem de hoje e nem dos demais dias).

A água trazia um calor que seu corpo agradecia. Suas mãos lavavam-lhe o corpo e a alma com sabonete líquido de orquídeas brancas e ela se focava somente na imagem de tão belas flores deixando um aroma dos deuses pelo seu corpo.

Passados alguns minutos, abandonou a ternura de seu banho e vestiu um pijama de algodão, que lhe traria uma dose extra de conforto e uma sensação de aconchego, de bem-estar. Seus lençóis claros traziam a lembrança do paraíso e ela se parabenizava mentalmente por estar conseguindo se distrair com coisas tão fúteis e randômicas, punindo-se simultaneamente por ser tão fútil e sem foco.

Aconchegou-se aos poucos e procurou relaxar seu corpo, parte por parte, mentalizando seus músculos e movendo esforços para não pensar em nada que não fosse aquilo. Quando sentiu-se relaxada o suficiente, virou para o lado, mirou o relógio: 6:32 da manhã. Uma hora de sono. Que ótimo!

7:49 da manhã. Atrasada. Puta que o pariu, literalmente!

Sua vontade de ir trabalhar era zero. Seu humor nem deveria ser mencionado. Mas mesmo assim, foi. Porque quando se é adulto algumas convenções devem ser respeitadas, e ir trabalhar a cada santo dia era essencial para o bom funcionamento da máquina mortífera que chamamos de sociedade. Seu cliente das 9:15, o caso da separação em caráter litigioso era a última coisa que ela queria àquelas alturas. O homem declarava que sua mulher o havia traído. "Sério, universo, é isso que você tem pra mim hoje?" Ela estava se esforçando, a autora admite, mas nada lhe favorecia. Cada palavra dita pelo cliente das 9:15 fazia com que ela se sentisse culpada pelo relacionamento estranho que tinha tido com Antônio. Ela podia visualizar Manuela no lugar do cliente, reclamando sobre seu marido que a traia desde que eram simples namorados.

Era tudo o que Laura precisava!

Ela não conseguiu assumir o caso. Disse para o cliente para que procurasse o Dr. Azevedo, seu colega de faculdade, especialista em casos do gênero e lhe pediu desculpas. Ela não seria capaz de lidar com algo daquela natureza, não nessa situação em que se encontrava.

Laura precisava admitir: Antônio a afetava deste tanto.

Ela permitiu que um cliente em potencial procurasse outro advogado simplesmente porque não conseguiria lidar com a realidade dos fatos que teria que defender. Seria um tanto hipócrita de sua parte acusar alguém de adultério perante os tribunais sendo que ela era o possível pivô de uma separação (menos dramática, ela esperava, caso esta fosse existir algum dia e caso fosse por responsabilidade dela).

Fato este que era bastante impossível, ela tinha que admitir. As “verdades” que ela havia dito a Antônio eram verdadeiramente isso, na mais ampla vastidão semântica: verdades. Inconscientemente, ela tinha ciência de que ele não moveria uma palha para alterar sua vidinha mais ou menos em qualquer aspecto que fosse. Comodismo o definia, mas era antítese nesse aspecto, uma vez que não suportava a monotonia do relacionamento com Manuela. Rapaz complicado esse Antônio.

Na hora do almoço ela recebeu uma mensagem de texto:
“Você vem aqui pra casa hoje a noite, não vem?”
Com muito lirismo, ela pensou: “que audácia!”. Respondeu no mesmo instante:
“Não.”
A resposta veio em alguns segundos:
“OK. Podemos nos encontrar em algum outro lugar pra conversar e colocar os pingos nos ‘is’ então?”
Não seria má ideia. Havia muitos ‘is’ que ela não tinha botado pingos entre eles.
“No Romero, às 21:00.”
Ele respondeu no ato:
“OK. Te espero. Beijos, linda.”
Galanteador ao extremo, mesmo em situações inoportunas. Tantos “OK” deveriam ser interpretados como conformismo? Ou será que ela deveria parar de interpretar as mensagens de texto, que pouco tinham a ser interpretadas, que não o que estava explícito? Essa mania de ver pelo em ovo ainda a faria meter os pés pelas mãos.

Expediente tranquilo, ela diria. Poucas pendências para serem resolvidas, questões relacionadas ao departamento jurídico da sua empresa, em maioria. As 17:00 ela já estava liberada. Passou em um salão de beleza que costumava frequentar, fez as unhas, pintou-as de vermelho, cortou um pouco as pontas dos cabelos e fez uma escova. Nenhuma superprodução, mas já apresentava uma melhora sutil no seu semblante de quem chorara na noite anterior.

As 19:45h ela entrou no elevador. Chegou ao seu apartamento, tomou um banho morno, lavou o rosto com um sabonete especial e o corpo com o sabonete líquido de orquídeas brancas e era capaz de sentir o aroma suave e a sensação suave que ele deixava em sua pele. Depois de poucos minutos, já estava enxuta e em frente ao seu closet, escolhendo algo simples, mas sexy para o jantar esclarecedor que teria dali a exatos 42 minutos. Optou por um vestido azul marinho, longo, que lhe caia suavemente sobre o corpo. Pouco decotado na frente, mas aberto na maioria das costas. Acho que essa era a medida exata de sensualidade para o momento. Sandálias de salto Anabela em um tom marfim, com poucos pontos de brilho, uma bolsa da mesma cor. Uma pulseira dourada, argolas nas orelhas. Maquiagem suave, mas notável. Olhou-se no espelho e admirou o resultado de suas escolhas. A feição que Laura exibia também era resultado de suas escolhas: uma serenidade perene de quem tinha certeza de seus atos e que não poderia ser dissuadida.

Chegou alguns minutos atrasada e teve dificuldade para estacionar. Era o horário de pico do Romero, e ela sabia disso. Não era que quisesse plateia para o espetáculo, apenas precisava de pessoas presentes para lembrar-lhe de não se exaltar, de não deixar que os fatos lhe fugissem do controle.

Ele estava em uma mesa um pouco mais reservada, ao fundo, com duas taças – uma cheia e outra vazia, a sua espera – na mesa. Ela sorriu e se sentou, evitando o beijo que ele quis lhe dar. Surpreso com a frieza das atitudes dela, ele notou que a noite seria de muita conversa.

- Como foi seu dia? – Ele questionou, fazendo uso convencional da função fática.

- Pouco proveitoso, e o seu? – disse ela, tomando cuidado de ser inexpressiva em suas palavras.

- Ah, normal, como sempre. – Antônio não sabia como levar aquela conversa, então, preferiu ir por um caminho mais fácil. – Vamos fazer o pedido já? O que você vai querer?

- Uma salada e um filé de peixe grelhado, por favor.

Ele chamou o maître e disse-lhe o que queriam.

A conversa foi superficial. Falaram do vinho, do movimento do restaurante, do trânsito para chegar até ali, e demais amenidades. Quando os pratos chegaram, jantaram em silêncio. Trouxeram a sobremesa – creme de papaya com licor de cássis – que eles comeram em silêncio também. Falaram mais algumas amenidades, sobre como o jantar estava delicioso e do sabor da sobremesa. Já eram 22:55 quando ele sugeriu pagar a conta e irem. Foi então que ela percebeu o que aconteceria depois, caso ela não tomasse coragem e dissesse o que planejou mentalmente durante todo o dia.

- Antônio, será que eu posso te dizer umas coisinhas antes de irmos? – um pequeno traço de indecisão cruzou seus olhos, mas a forte mulher que habitava naquele corpo não permitiria que esse pequenino porém lhe impedisse de dizer as coisas que ela precisava dizer.

Ele apenas assentiu, respirando profundamente, como quem diz “despeja logo tudo isso que te trava o peito”.

- Eu pensei muito durante todo o dia... pensei no que te disse essa manhã, no que nós somos, no que poderíamos ser, pensei mais do que achei ser capaz de pensar sobre um único assunto. E, bem, acho que cheguei a uma conclusão. Eu decidi que os nossos encontros findam hoje. Que esse jantar foi a última vez que nos vimos e compartilhamos algo enquanto “amantes” – pronunciou essa última palavra meio que entredentes, quase que com medo de que alguém a ouvisse. – Sinto muito por termos levado isso tão adiante, quando deveríamos ter parado logo no início, ou melhor... nem ter dado início a isso.

- Com isso você se refere a que, Laura? Ao nosso relacionamento? Acha que fomos tão pouco que podemos ser resumidos a “isso”?

- Acho, Antônio. Acho que fomos fracos e sucumbimos um ao outro, mas espero que possamos ser fortes e encarar toda essa situação com maturidade...

- Sim, maturidade. Mas não sei se sou bem eu que estou sendo imaturo, Laura. Acho que você está se precipitando, tomando decisões sem pesar direito os dois lados da moeda. Entendo que você esteja se sentindo mal pelo que vivemos, mas quero que saiba que tomei atitudes para mudar isso, porém, você tá claramente me descartando...

- Não, Antônio, é você quem sempre me descarta. Eu não gosto de me sentir limitada e contigo as coisas são sempre limitadas, sempre “até certo ponto”, sempre ocultas... eu não quero ter que lidar com isso o resto da minha vida, entende? Quero mais pra mim e é isso que eu estou fazendo quando te digo que não vamos mais ficar juntos: estou tentando extrair mais das minhas noites do que paixão. Estou me dispondo a buscar um companheiro pra vida, não apenas pra relações amorosas eventuais. Entende? Eu sou jovem ainda... tenho chance de encontrar uma pessoa legal e sei lá, ter uma família, quem sabe? Não... não me prive disso, por favor.

- E quem disse que não quero ser esse cara na sua vida? Que não quero ter família contigo? Poxa, Laura, estamos a mais de um ano compartilhando momentos e...

-Você tocou onde eu queria chegar. MAIS DE UM ANO. Você tem noção do que tá dizendo? Durante um ano eu fui cúmplice das tuas traições. Um ano, Antônio, que você deixa a Manuela em casa e me liga. Tá certo isso?

- Não importa se é certo ou não, importa é que somos nós, amor, sempre fomos nós, você sabe.

- Nós três. Eu e você e a Manuela.

- Ela não conta, amor, não mais...

- Não? Engraçado, porque achei que era com ela que você passava os natais e os réveillons na praia.

Ele se calou, sua expressão tomou ares de mistério, depois de culpa e então, se rendeu.

- Não preciso mais viver dessa forma, Antônio. Eu posso ter uma vida diferente, entende? Posso e quero! Não seja egoísta e me deixe ir, sem questionar mais nada, apenas ir, em frente, sabe?

- Laura, eu amo você e sabes muito bem disso. E é por isso que eu estou desse jeito, destruído por dentro por saber que não posso te fazer tão feliz quando tu mereces ser. Eu acabei me acomodando com a Manu, não sabia como desfazer esse vínculo, assim como não consigo quebrar a ligação que a gente tem e que vai muito além de cama, de sexo, de “trepadas” como você disse essa manhã. Contigo é amor, é sempre amor. Não é só pra satisfação física, é elevação emocional pra mim também, é comunhão espiritual, é muita coisa... menos puramente questões físicas. Eu te quero por perto porque fico melhor quando estou contigo. Entende? É confuso, é egoísta, mas é assim que eu vejo! Eu soube que isso aconteceria essa noite, então, comprei essa pulseira pra você... – uma caixinha quadrada de uns 10 centímetros de lateral apareceu em cima da mesa. Quando ele abriu, vi uma corrente curta, pouco maior que a circunferência de um punho, dourada com pérolas negras. – eu espero que você goste, use e lembre de mim. Esse presente é meu modo de dizer que te amei, mas que estou te deixando livre e me libertando também. Eu terminei com a Manu hoje à tarde. Chamei ela pra conversar lá em casa e disse que não podia levai aquilo adiante sendo que não a amava mais, que não me sentia mais próximo a ela. Achei que ela reagiria mal, mas ela foi condescendente, disse que já esperava por isso. Ela desejou sorte com a outra pessoa da minha vida, confessou que já sabia há um tempo, mas que não podia reagir a isso, pois também tinha outra pessoa pra suprir o vazio que eu deixava na vida dela. Enfim, eu estou resignado a tua decisão, mas quero que saiba e compreenda que estou saindo sem nada daqui hoje. Sem você, sem a Manu, que hoje descobri não ser minha já faz tempo, sem alguém que me ame. Consequência dos meus atos creio eu. Mas, Laura, eu te amo e quero o melhor pra você. Só... – um brilho diferente nos olhos, uma lágrima presa no cantinho externo dos cílios teimando em querer se ver livre daquela prisão começou a seguir rumo as bochechas – só lembra de mim com carinho, tá? E usa essa pulseira sempre que puder. Sério, você fica linda com joias escuras e pérolas te valorizam muito, meu amor.

A expressão que o rosto da impassível advogada exibia era de perplexidade total. Primeiro ele aparece com uma joia linda numa caixinha de grife, depois conta que terminou com a Manuela e ainda termina todo o monólogo falando que só deseja o melhor e que está deixando-a livre? Os nós da mente de Laura já estavam pra lá de apertados, emaranhados, enrolados e todos os demais adjetivos que possam ser aplicados à metáfora. Nesse meio tempo – curtíssimo meio tempo -, ele secou aquela teimosa pequena lágrima, pôs o guardanapo que jazia em seu colo em cima da mesa e se levantou. Dirigiu-se ao lado oposto da mesa, beijou a testa de Laura, em um ato pra lá de afetuoso, e começou a se afastar.

A mente dela parou. E recomeçou a pensar de um novo ponto, como se tivesse dado um “reset” em tudo o que havia pensado antes, e decidido, e proferido. A única coisa que ela foi capaz de dizer foi um “espere!” meio sufocado. Ele pareceu não ouvir, então, mais do que depressa, ela se levantou e se dirigiu para a saída, por onde ele havia passado alguns momentos atrás. Na frente do restaurante, ela viu o Azera dele parado, com os faróis acesos, prestes a disparar rua abaixo. Correu como pode – como seu vestido longo e suas sandálias de salto a permitiram. O alcançou quando ele dava partida no carro, bem a tempo.

- Você não pode me falar tudo o que falou e simplesmente sair assim! – ela gritou, socando o vidro do passageiro, esperando que ele abrisse.

E quando o fez, ela tentou se recompor, parecer digna do da carteirinha da OAB que possuía. Conseguiu. Ele respirou fundo e iniciou um novo monólogo.

- Eu não sei quanto mais eu consigo ouvir, Laura. Eu entendo que sou um cara horrível, um bígamo, pode até se dizer. Mas eu tentei fazer felizes as duas pessoas a quem eu amava. Uma delas, que ainda amo e que quase quebrou o vidro do meu carro, aliás. Mas não sei se obtive êxito, não sei se te fiz tão feliz e tão bem quanto eu imaginava. Não sei, também, o quão feliz a Manuela era, ou o quão decepcionada e frustrada eu a deixei. O que importa, é que enfim decidi que rumo tomar da minha vida. O fato é que – foi necessário que ele fizesse uma pausa breve para escolher as palavras corretas – a mulher que eu acabei escolhendo, não quer me escolher porque me acha pouco digno e de caráter duvidoso. Eu entendo e assumo algumas falhas da minha personalidade e se você quiser achar que sou o pior homem da face da Terra ou de todo o Universo, ok, não vou poder fazer nada além de tentar mudar sua concepção, me tornando o homem que você quer e precisa ter do seu lado. Não sei quanto tempo isso pode demorar, nem se vou conseguir fazer isso, mas por você, eu tento meu amor, tento de tudo pra te ter do meu lado por mais tempo, por mais noites e dias e finais de semana e feriados. Esse um ano e pouco que te tive na minha vida foram pouco, te quero mais e diferente do que te tive até agora... porém, sei que você não me acha merecedor de estar do teu lado. Então, estou deixando o caminho livre, o livro aberto e as próximas páginas em branco, pra você escrever da forma que quiser. Mas te deixo ainda te amando, e vou amar por muito tempo ainda, pode ter certeza.

Ela estava debruçada no carro, ouvindo tudo e chorando copiosamente, como se não soubesse onde desligar a torneira interna de seus olhos, como se as lágrimas fossem infinitas dentro de si. Ele sorriu e lhe enviou um beijo com a ajuda das correntes de ar, como ela costumava fazer sempre quando ia embora sorrateiramente e achava que ele ainda estava dormindo. Ela entendeu, e ficou ereta, desencostando-se do carro que seguiria rua abaixo apenas alguns segundos depois.

Laura entrou no seu próprio carro, com os olhos ardendo de tanto chorar e o rímel borrado até as bochechas. Recapitulou os fatos. Entendeu que, naquela noite, ela movera seus peões no tabuleiro, mas quem dera o cheque-mate, fora ele. Dirigiu até em casa, estacionou na garagem, subiu pelo elevador, abriu sua porta e desabou no sofá. Pegou o celular, era quase meia noite e ela tinha uma nova mensagem na caixa postal. Clicou para ouvir. A voz era velha conhecida sua:
“Amor, eu to dirigindo e falando ao telefone, violando as regras por você, como sempre fiz. Te deixei com o meu coração, espero que você cuide dele. Não sou nenhum Romeu e nem o melhor homem do mundo, mas te amo e espero que você saiba a decisão correta a tomar. Eu posso te fazer feliz, sendo só teu, ou pelo menos tentar. Mas você precisa permitir. Eu não estou mandando você ir, mas, caso achar que a gente ainda pode ser feliz junto, entra no teu carro e vai lá pra casa. Eu vou te esperar loucamente, Laura, angustiado sem saber da tua resposta. Vai, por mim, me deixa tentar... amo você, meu amor.” Você não possui mais nenhuma nova mensagem....
Ela desligou, pegou a bolsa como louca e trancou a porta atrás de si. Desceu o elevador com pressa, batendo os pés contra o piso para ver se o impulso fazia alguma diferença e a levava mais depressa até o subsolo. Saiu do elevador, abriu o carro e disparou rumo a casa dele.

Menos de dez minutos, quase um recorde.

Mais um elevador. Cinco andares. Mais batidinhas de pé. Uma porta de abrindo, uma campainha tocando, outra porta de abrindo e um sorriso enorme ao vê-la.

- Eu... eu não tinha certeza se você viria... eu achei que não mas eu esperava que sim... – lágrimas e uma mistura de beijos e carinhos, e abraços, e palavras afogadas em mais lágrimas, e sorrisos.

- Eu vim, eu amo você, e eu quero tentar. Mas você tem que me prometer que vai tentar também, que vai tentar ser fiel e que, se não for fiel, vai ser sincero e honesto, pelo menos, e me contar. Não vou conseguir suportar caso não for assim, Antônio, então me promete que vai tentar e que se não conseguir, vai ser honesto comigo, pelo menos, me promete, por favor. – o desespero e a necessidade da resposta dele estavam presentes a cada palavrinha que ela pronunciava.

- Eu vou, Laura, meu anjo, vou sim porque eu preciso de você por perto, preciso ter certeza que vou te ver de novo pra ter paz. E eu vou te ver de novo, não é? Todos os dias, de manhã e a noite, não vou? Me diz.... 

Meio sorrindo, meio afirmando, ela fez que sim com a cabeça, assentindo.

Naquela noite, ela dormiu ali. A noite toda. Não quis acordar de madrugada, pois sentiu que não precisava mais daquilo. Ela soube que se acordasse ali, ao lado dele, teria um sorriso e um abraço a esperando de manhã e eles fariam amor, porque ela agora sabia, tinha certeza... era amor.

Existem maus passos que se tornam corretos quando as atitudes necessárias são tomadas. Porém, é preciso que o impulso seja dado. De uma das partes, ou de ambas, como foi com Antônio e Laura. Mesmo que as forças sejam contrárias, e que cada um empurre em uma direção... haverá o movimento, a mudança e é essa a questão. Se algo não vai como deve, é preciso haver movimento, é preciso haver mudança. É bom que se saiba que ou bem se faz feliz uma pessoa só, ou acaba-se fazendo mal a si próprio e o pesar que uma coisa desse gênero pode trazer, afoga a alma em profunda confusão. Antônio e Laura geraram mudança e as decisões que decorreram disso lhes proporcionou alegrias intensas, assim como trouxe tristezas intensas também. Mas é disso que se trata a vida. Um ‘yng’ e ‘yang’ que dá ordem ao Cosmo, cargas opostas que se equilibram e proporcionam acontecimentos a todos. Casais não são formados por três pessoas e a utopia de que se pode levar isso adiante é exatamente o que é: uma utopia, uma distorção da realidade em favor de apenas um. O amor deve prevalecer, o mais forte deve ser levado em conta e se não me beneficiar, o que há de ser feito? Um adeus bem pronunciado é o que há de melhor para o momento.

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Adendo da autora: Esse conto representou muito pra mim. Foi escrito em partes, em madrugadas insones, onde a mente não se calava e a inspiração transbordava. Trata-se de um mix de experiências pessoais e boas leituras. Espero que gostem. (Lembrando que a escritora que habita em mim apenas descansa, em breves momentos, mas quando volta, sempre traz algo novo)

quinta-feira, janeiro 24, 2013

Devaneios autobiográficos



Por vezes, eu tinha plena consciência de que, no mundo, não poderia haver alguém mais paradoxal, mais antítese do que eu. Acredito que tudo isso se deva a minha infância e adolescência, onde tudo virava palavra, onde cada sonho virava conto, onde cada desejo virava um enredo. Não há alguém em específico para culpar. Pode ter sido minha mãe, que me alimentava em todos os sentidos, tanto real quanto imaginário, dando base literária para os meus mais absurdos devaneios, incentivando-me quando meus primeiros sonetos começaram a surgir. Posso, também, culpar meu pai por isso. Sua ausência gerara em mim certo tipo de revolta. Não aquele tipo que faz a gente querer fugir de casa, nada disso, mas aquele tipo que faz você abrir os olhos, enxergar em volta e ter um insight, notar que família não é composta por pai, mãe e você, variando, em situações, para determinado número de irmãos e animais de estimação agregados, mas sim que família, além de laços sanguíneos, necessita de laços cotidianos, de convivência. Eu culparia minha avó de forma tão grande e linda quanto culpo minha mãe. Matriarca, alimentou meus sonhos e me deu mimo, carinho,  atenção como só boas avós sabem fazer. Soube alimentar minha ilusão, fazer crescer minha imaginação, nascer em mim afeto. Agradeço aos três, mas principalmente a elas, por terem me feito essa garota iludida – no melhor dos sentidos -, criativa e apaixonada pelos estudos e pela vida, no seu mais amplo significado.
Sempre que me refiro a todo esse mistério completo que é a vida, entrelaçando os fatos e relacionando-os a mim, assombro-me. Não é como se eu tivesse vivido muito ou que eu saiba muito da vida, mas, de alguma forma que provavelmente nunca poderei compreender, ela se fez doce pra mim mesmo nos momentos onde tudo tendia a ser amargo. O Universo sempre manteve a poesia viva dentro de mim, adormecida sim, mas, ao menos, me forço a acreditar, nunca morta. Eu não sei nomear as coisas, como vocês poderão notar nas próximas orações, mas eu espero que vocês, com alma poética que também tem, possam compreender-me e decifrar-me, coisa que eu, com todos os anos já vividos, não consegui fazer.
Não há muito que ser dito, imagino, mas eu gostaria de contar estórias, trazer sentimentos à tona e lágrimas ao precipício dos olhos. Provocar emoções não é exatamente o que muitos chamariam de profissão, mas é o que tenho como lema na vida e é isso que terei de fazer, antes que pereça, Sei que muitos, ao saber desse desejo por meios não convencionais (e por isso compreenda-se, invadindo uma dimensão que é toda minha e lendo a minha mente, ora essa) devem achar-me uma tola, mas o que é que há de tão errado em querer fazer as pessoas sentirem-se compreendidas? Digam-me, em uníssono, há algo de mais belo do que poder fazer pessoas tocarem na consciência, fazê-las refletir? Certa vez, ao apresentar um trabalho de filosofia, no colegial, consegui fazer pessoas aparentemente fúteis chegarem a reflexões de um nível absolutamente diferente do normal a que estavam habituadas. Ao realizar este feito, senti-me exultante, por ter podido influenciar no crescimento espiritual, diria eu, aplicando na determinada situação, de uma pessoa que não tinha um horizonte reflexivo.
Gosto de pensar em mim como sendo uma onda. Aliás, sendo bem sincera com essas páginas que agora escrevo, confesso nunca ter pensando em mim nessa posição, mas é uma analogia que muito se encaixa comigo. Imagine uma onda e procure pensar em todas as características que podemos atribuir a ela. Uma onda bate na praia com uma força bruta, como se quisesse destruir o que lhe impede de seguir em frente. Ao mesmo tempo em que se revolta, cede à água e aceita seu destino. Aqui, aceitar não pode ser sinônimo de conformar-se, uma vez que, quando aplicada a mim, tal sinônimo não faria sentido real. Uma onda ergue-se no meio do mar, sem temer tudo o que há ao seu redor. Ela sabe, mesmo irracionalmente, que está no lugar certo, por mais que a densidade da água ao seu redor seja maior ao ponto de “sufocá-la”, ela entende que é ali que deve surgir, ali é que deve nascer. Nascer para morrer, como disse Lana Del Rey. Uma onda nasce, no seu sentido mais metafórico, com a certeza única de que irá morrer. Ela não sabe a direção que tomará, não sabe a força que terá e nem os obstáculos que encontrará no caminho, mas ainda assim, é impulsionada, impelida a ir em frente e a quebrar, por mais que essa não seja a sua vontade.
E assim somos nós também, impelidos a seguir em frente, a escolher destinos e estradas que percorreremos, muitas vezes sem nem mesmo ter alguém ao nosso lado. Temos que estar cientes a partir do momento que colocamos nossos pés no caminho por nós escolhido, que o regresso é muito mais difícil do que a partida. Quando se sai de um ponto qualquer, há na mente um pensamento de novidade, mas quando o regresso é imposto por forças maiores que nós, em sua maioria, o gosto que sentimos é amargo, é pouco – ou quase nada – saboroso.
Há momentos em que o regresso é desejado por nós, mas levando por base os que fiz, a balança pesa, em déficit, para as alegrias por eles trazidas. Não que haja uma fórmula geral e que isso se aplique a todos de forma igual, mas acredito que se levarmos em conta todas as vezes que precisamos voltar atrás, não há muitas coisas boas que possamos listar. Ao contrário disso. Vejo por mim. Sou altamente impulsiva, ajo com muita irresponsabilidade por vezes, e culpo minha impulsividade por isso. Faço coisas que, nesse momento são minha maior necessidade, mas que daqui há alguns instantes serão meus maiores arrependimentos. E nessa de correr atrás, regredir, só quebro a cara e junto dela, o coração. Sinto o que já não devia mais sentir, faço o que já não mais deveria fazer, digo o que já não mais deveria dizer.
Mas e quando vejo, já repenso. Deveria ter feito, ter dito, ter realizado. Porque se não fizesse naquela hora, faria depois, por qualquer motivo mais bobo do que o do primeiro momento. Não adianta, atitude é igual amor: Se você tiver que pensar duas vezes, já não é mais algo verdadeiro, algo válido. Podem até dizer que é normal pensar antes de falar, refletir antes de agir, mas quando faço isso – vejo por mim, pelo menos – quase nunca me torno sincera nas atitudes, e por isso, a impulsividade me domina. Há em mim um desejo de sempre ser honesta, tanto comigo quanto com o resto do mundo. Não é clichê ou mesmo achismo, é só uma real necessidade que tenho... uma característica toda a minha e que julgo ser muito positiva.
Seria injusto da minha parte, também, dizer que sempre ajo de forma impulsiva, mas é necessário ressaltar que, em sua maioria, por mais que reflita semanas, a atitude que tomo é a primeira que havia cogitado, as palavras que digo, são as primeiras que havia mentalmente escrito. Quando não acontece isso – e os casos são bem raros – sinto que fui desonesta com as pessoas e comigo mesma. Podem dizer que é muita exigência da minha parte para comigo, mas cada um escolhe o modo como vai ver a vida, certo? Eu escolhi agir dessa forma, e, na maioria das vezes, não me arrependi da escolha.
E essa, acho eu, é apenas uma das minhas particularidades.